"Brasileiro
está de costas para o mar"
Entrevista
do CMG (RRm) Sergio Luiz da Motta Zorovich pelo Jornal
a Tribuna:
O Brasil precisa de política marítima estratégica, que
dê prioridade à imensa costa do País, de quase 7.500 quilômetros.
O alerta é de Sergio Luiz da Motta Zorovich, 51 anos, natural de Santos,
capitão-de-mar-e-guerra da reserva da Marinha, com 32 anos de serviços
prestados à Armada.
Zorovich está preocupado com a situação da atividade marítima
no Brasil. ‘‘Não há um trabalho contínuo de
conscientização de maritimidade e, desta forma, o brasileiro,
de costas para o mar, está conduzindo a Nação de costas
para o futuro’’.
Embora tenha formação militar, Zorovich se inquieta com a marinha
mercante brasileira, que hoje não mais transporta os produtos nacionais
nem os importados. Além da questão estratégica, que é
ter navios de carga próprios em tempos críticos, de guerra, outro
fator alarmante é a saída de divisas.
Lembra Zorovich que em 1985 o Brasil tinha uma frota mercante de embarcações
somando 8 milhões de toneladas, cargueiros que geravam receitas. ‘‘Hoje
pagamos em serviços de fretes e afretamento de navios estrangeiros cerca
de US$ 6 bilhões anualmente’’.
Nesta entrevista, Zorovich fala também sobre a necessidade de o Brasil,
um país que não entra em guerra, dispor de uma frota de navios
bélicos. Mostra a necessidade estratégica de a Marinha ter submarinos,
sobretudo o nuclear, e explica por que a Esquadra adquiriu o porta-aviões
São Paulo da França, entre outros assuntos militares.
A carreira de Zorovich começou em 1972, como guarda-marinha a bordo do
navio-escola Custódio de Mello, já desativado. Ele serviu em diversas
embarcações da Marinha, como o rebocador de alto-mar Tridente,
o navio-transporte Barroso Pereira, a corveta Purus e o navio-varredor Anhatomirim.
Em 1995 foi superintendente administrativo do Centro Tecnológico da Marinha,
na Universidade de São Paulo (USP), no projeto nuclear brasileiro.
Atualmente, é representante da Fundação Estudos do Mar
(Femar) em Santos. A Femar tem sede no Rio de Janeiro. É sócio
da Zorovich & Maranhão Serviços Náuticos e Consultoria,
que também promove inspeções e treinamento.
Apesar da formação militar, Zorovich se preocupa com o destino
de Santos na área turística, por exemplo. ‘‘Fico perplexo
ao parar diariamente na Ponta da Praia, em minhas caminhadas, e ver aquela área
da Nobara, no lado de Guarujá, sem nenhuma serventia, localizada em um
dos pontos mais ricos e belos do nosso estuário. Uma cidade-porto como
é Santos necessitaria ter o seu complexo turístico centrado e
não pulverizado. Centrar o complexo turístico do maior porto da
América Latina à beira-mar é o nosso grande sonho, e o
maior empreendimento e entretenimento que poderíamos dar à população
de todo o Estado de São Paulo’’.
A Tribuna — Como o sr. vê a questão
da navegação marítima no Brasil?
Sergio Luiz Zorovich — A navegação
marítima no Brasil foi entregue aos estrangeiros, enquanto o nosso comércio
internacional utiliza o mar como via de circulação de 95% de todos
os produtos importados e exportados. A marinha mercante brasileira não
mostra mais a nossa bandeira nos oceanos e nos mares do mundo. Em 1985 tínhamos
cerca de 8 milhões de toneladas construídas gerando receitas,
enquanto hoje pagamos em serviços de fretes e afretamentos de navios
estrangeiros cerca de US$ 6 bilhões de dólares anualmente.
A Tribuna — O que aconteceu?
Zorovich — A construção e o reparo
naval foram sucateados. Na década de 80 éramos o segundo país
em tonelagem construída, tínhamos um parque industrial naval que
gerava 52 mil empregos diretos e 200 mil indiretos. Hoje geramos apenas 8 mil
empregos.
A Tribuna — Como reverter a situação?
Zorovich — O País necessita urgente de
uma política estratégica marítima, que contemple a marinha
mercante com uma nova frota, que não só evitará a evasão
de divisas com fretes e afretamentos, mas também contribuirá para
o Poder Marítimo, imprescindível para uma nação
que deseja ser soberana. Em resumo, não existe vontade política
de fazer o País crescer através da atividade marítima.
A Tribuna — Que medidas o País deve implantar
para melhorar a segurança do transporte marítimo?
Zorovich — Não existem medidas regionais
a serem implantadas e sim as medidas já referendadas pelo Brasil nos
acordos internacionais que versam sobre a segurança da navegação.
Desta forma, não há o que inventar e sim cumprir o que já
está escrito.
A Tribuna — E como é esta ação?
Zorovich — A Diretoria de Portos e Costas (DPC),
pertencente ao Comando da Marinha, possui uma estrutura apropriada em cada porto,
o Port State Control (Controle de Estado do Porto): oficiais qualificados fazem
as inspeções regulamentares nos navios mercantes, evitando que
embarcações irregulares ou substanders naveguem ou atraquem em
nossos portos. A médio e curto prazo está a obrigatoriedade de
renovação da frota para navios químicos e petroleiros e
a utilização de casco duplo.
A Tribuna — Quais são as maiores deficiências
da atividade marítima no Brasil?
Zorovich — O País não possui um
planejamento estratégico para o setor. Com isto, o brasileiro também
não se interessa pelo mar com a devida importância, dentro do conceito
de soberania nacional. Não há um trabalho contínuo de conscientização
de maritimidade e desta forma o brasileiro — de costas para o mar —
está conduzindo a Nação também de costas para o
futuro.
A Tribuna — Por que o Brasil deve dispor de
uma Marinha de Guerra forte, se o País não entra em guerras?
Zorovich — A existência de uma Marinha
de Guerra forte é a garantia da paz. A garantia de a Nação
ter resguardada a integridade física, as riquezas, a segurança,
a soberania. Em qualquer regime existente no mundo, do democrático ao
totalitarismo, a lei sem a força é letra morta!
A Tribuna — Por que o Brasil tem dificuldades
para modernizar a frota naval bélica?
Zorovich — A partir do início da década
de 90 a Marinha passou a trabalhar em um novo processo de modernização
— o último tinha sido na década de 70 —, que passou
a ter um processo contínuo. É lento devido aos escassos recursos
financeiros hoje disponíveis.
A Tribuna — Que modelo o Brasil deve adotar,
em termos de política de Marinha de Guerra?
Zorovich — Devido à diversificação
de uma força naval, não há um modelo único a adotar
e sim classes de navios a serem adotadas. Hoje o Brasil opta pelos navios velozes,
que são as fragatas e as corvetas e os navios-patrulha, em vista da nossa
longa fronteira molhada, de 7.472 quilômetros. Mas dentre todas as classes
a mais respeitada e temerosa é o submarino. E o Brasil possui um programa
extenso de construção de submarinos.
A Tribuna — Por que o Brasil constrói
um submarino nuclear?
Zorovich — Porque o submarino é a arma
naval mais temida devido ao seu poder de ocultação. Se for nuclear,
esta pode se tornar quase infinita e aparece também o fator da elevada
mobilidade devido à velocidade desenvolvida submerso. O uso do submarino
nuclear por uma força naval, principalmente no caso do Brasil, que tem
como princípio a autodefesa, seria a solução para a quantidade
de meios flutuantes.
A Tribuna — E quais as vantagens de um submarino
em relação a outros navios de guerra?
Zorovich — Um único submarino nuclear
é capaz de imobilizar uma força oponente, como aconteceu no caso
da Guerra das Malvinas. Uma das missões da Marinha é negar o uso
do nosso mar pelo adversário. Assim, enquanto os meios de superfície
e aeronavais podem ser dizimados no enfrentamento de forças muito superiores,
os submarinos, ocultos, serão sempre ofensivos e imporão risco
ao oponente.
A Tribuna — E um submarino nuclear é
suficiente?
Zorovich — Devido à nossa longa costa,
e até para evitar que no futuro outras nações venham a
tentar colocar em prática teorias hoje discutidas em foros internacionais,
acredito que sejam necessários quatro submarinos nucleares e mais as
suas instalações de apoio, que devem ser próprias para
este tipo de unidade naval.
A Tribuna — Como está a tecnologia de
construção de navios de guerra no Brasil, concentrada no Arsenal
de Marinha do Rio de Janeiro?
Zorovich — O Brasil hoje domina a tecnologia
de construção naval militar, tanto de navios de superfície
como de submarinos. Décadas foram gastas em estudos, pesquisas, treinamento
e formação de pessoal capacitado, tanto aqui quanto no exterior.
A Tribuna — Que tipos de navios de guerra o
Brasil está habilitado a construir?
Zorovich — O País está capacitado
a construir qualquer tipo de navio de guerra, inviabilizado apenas pelo fator
financeiro, e seria o caso de construir-se um porta-aviões. Os navios
de guerra, independente da classe a que pertençam, são embarcações
muito caras devido aos requisitos e parâmetros de construção
para o combate. Sendo assim, muitas vezes é melhor opção
obter-se uma embarcação já usada.
A Tribuna — Por que a Marinha do Brasil adquiriu
o porta-aviões São Paulo?
Zorovich — Foi uma compra de oportunidade, de
uma nação com quem o País mantém estreitas relações.
Este fato fez com que o valor fosse praticamente zero para o tipo de embarcação
adquirida e possibilitou à Esquadra brasileira utilizar a própria
aviação embarcada, contando agora com ampla defesa de área,
através das novas aeronaves a jato.
A Tribuna — Se o Brasil domina a tecnologia
de construção naval bélica, não poderia exportar?
Zorovich — O mercado de navios de guerra é
muito escasso devido ao custo de cada embarcação e posteriormente
da manutenção. O Brasil possui a empresa Emgepron, que faz a parte
comercial de exportação de navios de guerra. Como o País
detém a tecnologia de construção, basta aparecer a encomenda,
que temos a capacidade de construir.
A Tribuna — Quanto aos recursos marinhos, por
que são mal explorados no Brasil, um país com quase 7.500 quilômetros
de costa marítima?
Zorovich — Volto à falta de mentalidade
marítima e por conseguinte de uma política voltada para o mar.
Como exemplo, o Brasil tem um péssimo consumo de peixe por habitante.
Uma pesca quase artesanal produz apenas 0,5% dos 120 milhões de toneladas
recolhidas anualmente no mundo. E o peixe é uma das mais ricas fontes
de alimentos.
A Tribuna — Que tipos de projetos marinhos poderiam
ser aplicados no Brasil para impulsionar a economia?
Zorovich — O turismo marítimo intensivo
seria o primeiro, estendendo-se inclusive para a América Central e toda
a América do Sul. É bom lembrar que se trata do turismo que mais
cresce no mundo e que hoje estão em construção 51 transatlânticos,
inclusive o maior deles, que será o Queen Elizabeth III.
A Tribuna — E o segundo projeto?
Zorovich — Apoio à pesca regional e ao
consumo do pescado, por tratar-se de uma atividade geradora de múltiplos
empregos e por ser o peixe um alimento saudável.
A Tribuna — E que outro projeto mais poderia
alavancar a economia?
Zorovich — A construção de grandes
terminais de passageiros, semelhantes ao de Miami, por exemplo, que tenham a
capacidade de atrair o público interno, assim como de absorver os milhares
de utilizadores dos cruzeiros marítimos.
A Tribuna — E na Baixada e Litoral, que projetos
marinhos poderiam ser desenvolvidos?
Zorovich — Vou citar apenas um, que por sua
grandiosidade e complexidade atenderia a todos os segmentos: um grande complexo
marítimo de turismo, dotado de toda a infra-estrutura necessária
para atender, em regime contínuo, os transatlânticos, as embarcações
de esporte e recreio em trânsito, e a população da Baixada,
que é carente desse contato mais íntimo e mais cultural com o
mar.
A Tribuna — E quanto a projetos já apresentados?
Zorovich — Claro que já existem projetos
hoje delineados, como é o caso do Marlim Azul. Todos serão bem
vindos, e aquele que atender o maior leque de atividades seria o mais adequado.
Fico perplexo ao parar diariamente na Ponta da Praia, em minhas caminhadas,
e ver aquela área da Nobara, no lado de Guarujá, sem nenhuma serventia,
localizada em um dos pontos mais ricos e belos do nosso estuário.
A Tribuna — Por que o sr. defende aquela área?
Zorovich — Uma cidade-porto como é Santos
necessitaria ter o seu complexo turístico centrado e não pulverizado.
Centrar o complexo turístico do maior porto da América Latina
à beira-mar é o nosso grande sonho, e o maior empreendimento/entretenimento
que poderíamos dar à população de todo o Estado
de São Paulo.
A Tribuna — Em relação à
questão ambiental marítima, quais são os maiores problemas
do País?
Zorovich — Como no resto do Brasil, o problema
ambiental maior vem dos resíduos industriais e da falta de saneamento
básico. Sem rede de esgotos e seu tratamento dentro do estado da arte,
obrigação do Estado, e sem controle de efluentes industriais e
seu respectivo processamento pelas empresas não há solução.
A Tribuna — As leis são adequadas para
combater a poluição marítima?
Zorovich — O País hoje está dotado
de uma nova lei, que vem sendo regulamentada. Trata-se da Lei 9.966, datada
de 28 de abril de 2000 e que dispõe sobre a prevenção,
o controle e a fiscalização da poluição causada
por lançamento de óleo e outras substâncias nocivas ou perigosas
em águas sob jurisdição nacional. O seu cumprimento já
vem sendo exigido, tanto pelos órgãos ambientais públicos
como pela autoridade portuária e principalmente pela autoridade marítima.
A Tribuna — E os portos, que papel têm
neste processo de combate à poluição marítima?
Zorovich — Começam a surgir os grandes
programas de Gestão Ambiental Portuária, onde as empresas têm
demonstrado preocupação em manter um processo de crescimento e
desenvolvimento sustentado. Com certeza, o País deu um grande passo ao
legislar e regulamentar as ações ambientais nas áreas marítimas
e portuárias.
A Tribuna — E sobre o vazamento de nafta em
Paranaguá, no Paraná?
Zorovich — Conheço o problema, até
porque presto serviços para a Petrobras no controle da poluição
marítima. Foi realmente um acidente grave, mas controlado. A nafta tem
algumas características que ajudam ou se tornam um inconveniente.
A Tribuna — Qual a primeira característica
da nafta?
Zorovich — É volátil, o que contribui
para a dispersão pela evaporação rápida e também
para a diluição pela própria água do mar. Isto ajuda
no controle mais rápido da poluição causada.
A Tribuna — Que outra característica
mais tem a nafta?
Zorovich — É tóxica, mas o ambiente
onde houve o vazamento está a uma distância segura da população
local. E é inflamável, mas por ter acontecido em uma área
portuária aberta, e com as providências imediatas tomadas pelas
autoridades marítima e portuária — o isolamento —
rapidamente este risco estará extinto.